domingo, 29 de março de 2020

Santo de casa, as vezes faz milagres


O erotismo visto do ponto de vista de uma terceira pessoa (David Tenier 1610-1690)
Chovia. Ela cogitava a possibilidade de não ir, mesmo querendo muito. Detestava dirigir a noite, ainda mais na chuva. Uber não queria chamar, pois já sofrera assédio de um motorista, certa vez. Pensou em pedir pra ele levá-la, mas se ele sequer concordava que ela fosse, tanto era o ciúmes, imagina  atender seu pedido. Haviam brigado, ele queria muito que ela ficasse, ela estava toda arrumada, maquiada. Salto agulha, meia arrastão, saia, blusinha nova, colares, pulseiras e anéis (figurino mais que clichê, marcado em nosso imaginário por alguma pin up, mas que sempre funciona)...e planos.
Festas de empresas geralmente são uma merda. As pessoas com quem você trabalha agem de duas formas antagônicas: mudam totalmente por estarem longe da zona de conforto. Por estarem acompanhadas, geralmente pelo marido ou mulher. De repente na empresa aquele seu colega é todo atirado, cheio de gracinhas, mas na frente da esposa, vira um anjinho sem graça. Há os que, pelo contrário, na empresa são contidos, ambiente de trabalho, medo de demissão, fora já não se pode dizer o mesmo. Nos dois casos, não sabem agir, sempre fazem papel de ridículo. Ela sabia disso, muito embora, se levasse o esposo, certeza que mudaria de comportamento, por isso nem o convidou. Seu motivo para ir tinha 1,81, barba por fazer, cabelo belamente despenteado e atendia pelo nome de Lucas Augusto...o ciúme do marido não era vão.
Depois de um ano de flerte, seria aquela a oportunidade de por em prática todo aquele tesão reprimido. A chuva aumentava torrencialmente. Chegou a digitar uma mensagem para que Lucas a pegasse em casa, mas seria muito arriscado. Só flertavam pessoalmente, pois ela tinha muito medo de ser descoberta, afinal Lucas também era casado e sabia de muitas histórias de gente que “rodou” pelo whatsapp. Não teve coragem de enviar. Frustrada, chorou, borrou a maquiagem. Pensou em se lançar enfurecida ao marido “filho da puta, aposto que foi praga dele...chuva do caralho”. Depois desdenhou “melhor eu não ir, ele nem é tudo isso...é sim, droga”. Mais choro, mais raiva.
Devaneou relembrando e repassando o plano elaborado, iria dançar longe dele pra fazer “uma média” com o pessoal e depois chamá-lo na cara larga pra ir num lugar mais tranqüilo com a inicial “m”, sabia que não ia ter coragem de ser direta, ao mesmo tempo, pensava “sou casada, ele também, tenho vida sexual quase ativa, aposto que ele também...se vamos sair, é pra trepar, não podemos perder tempo”. No caminho mesmo pularia sobre ele, tal como uma loba, chuparia seu pau (certa vez ouvira ele se queixar com um amigo, que a esposa deixava muito a desejar, sexualmente, principalmente no oral). “Tá fudido, vou acabar com ele”. Nesses devaneios a excitação veio, “pra ele dou até meu cuzinho”, estava toda molhada, “quero que meu marido se queixe de mim, aos amigos, porque quero fazer com outros o que não faço com ele, filho da puta”. E imaginou o marido na firma, compartilhando algum vídeo pornô e narrando as habilidades da atriz em questão “nossa, quem dera a patroa fizesse isso”, admirava o sexo anal em que a atriz fora obrigada a fazer e ainda sorrir, “lá em casa é só papai e mamãe, e muito de vez em quando”. Riu a imaginar a cena de frustração do marido diante de seus também frustados amigos que provavelmente nunca tenham feito as esposas gozarem. Bem, disso ela não podia se queixar.
Transtorno, excitação, ódio. Essa miscelânea de sensações a deixou muito estranha. “Sim, vou dar meu cuzinho pra ele, só pra punir meu marido”. Andava pela casa, bebendo vinho, celular, televisão. “Quero dar, caralho”. Virou o vinho, em pouco tempo matou uma garrafa. Já estava alta. Desse jeito faria besteira, certeza. Depois de praguejar muito e borrar toda a maquiagem, foi pro quarto com ódio do marido (que roncava aquele mesmo ronco odioso que ela detestava). “Traste do caralho”.
O traste dormia com um shorts bem largo, deixando a mostra, os testículos. Ela reparou, teve raiva, nojo...mas não conseguia parar de olhar, foi ficando excitada. O marido não era de se jogar fora. Embora desgastada a relação, o sexo deles era bom. Ele conhecia os segredos dela, sabia fazê-la gozar. Há quem diga que era bem mais bonito que o Lucas. Mas não se tratava de beleza. Se ela fosse casa com Malvino Salvador, George Clooney, com o Raí na década de noventa, não faria menor diferença, pois estava atras de aventuras. Ele se virou dormindo, a largueza do calção sem cuecas, revelou um pau bem venoso, musculoso. “Não acredito que to excitada com esse porra”. Sentiu vontade de chorar, pegou o travesseiro, mediu a cabeça dele “vou matar esse desgraçado”, ele se virou, viu a cabeça do pau, reparou na grossura. Tocou a bucetinha, tava bem molhada. Enfiou os dedos “vou me masturbar, não vou dar pra ele”, pensava, bêbada, sem tirar o olho daquele pau grosso e bonito que pendia dormindo, despretensiosamente. “Gostoso”, deixou escapar. “Porra, não acredito que minha sina é trepar com esse filho da puta o resto da vida”. Queria dar, mas não pra esse que roncava e babava de pé sujo em seu lençol limpo. O marido se mexeu, o pau parecia ter se enrijecido, “será que ele ouviu?”. Enfiou os dedos na buceta, pensou em Lucas...quando menos percebeu, segurava o pau do marido que continuava dormindo, ou fingia muito bem. Daqui a pouco, o acordou da maneira que todos os homens do mundo querem ser acordados, (inclusive esse que vos escreve): com um boquete bem molhado. Surpreso e felicíssimo (como alguém que é despertado com um boquete), ele a segurou pelos cabelos e elevou o corpo contra ela, enquanto a puxava, como se batesse uma bola no chão. Ela babava, ele gemia, ela engasgava, ele se empolgava...”calma, filho da puta, não é isso que você quer?” e abriu bem as pernas pra ele que sorveu o líquido de sua buceta, buceta essa que tinha pêlos negros lindos que contratavam com a alvura de sua pele, buceta essa protegida por uma virilha linda, canais por onde escoava a água do banho, ou o esperma quente e espesso. Saboreou aquela maravilha e depois a comeu de jeito, enquanto ela falava baixinho “vai Lucas”. Ele parecia uma britadeira comendo-a de quatro. “Vai Lucas”...ele, confuso, pensou ter ouvido exatamente isso e perguntou, “o quê”, ao que ela respondeu “me chupa”...com a língua ele extraía todo aquele saboroso ungüento da bucetinha...”vai Lucas”, certo de ter ouvido isso mesmo, mas extasiado de tesão, ele ignorou e a fez cavalgar no seu pau, de modo que ela esfregou, imobilizando-o enquanto ditava o ritmo da fricção, pois sabia exatamente onde encostar na púbis dele, sabia a intensidade... até gozar e apertar seu pau com as contrações. “Me come de quatro”, essa era a senha pra trepa terminar, pois ela sabia e, evidentemente, ele sabia que não durava nada quando ela empinava aquele rabo. Embora coadjuvante nessa trepa, só o marido sabia do esforço que tinha que fazer para esperá-la gozar, o que, tecnicamente, faz todo o sentido, se ele gozasse antes, ela não gozaria. Aí estava a qualidade dele, era nisso que ele ganhava pontos com ela. Ele lamentou um pouco, pois queria ficar mais tempo trepando, mas obedeceu. Quando ia penetrar aquela maravilha protegida por carnes macias, ela disse “aí, não”. Foi o suficiente pra ele ficar transtornado, quase brochou de tanto deslumbre “caralho, me acordou com um boquete e agora me oferece o cuzinho sem eu ter pedido”. O rabo dela tinha uma cavidadezinha antes de chegar no cuzinho, ele não sabia o que fazer, se chupava-o, se beijava...queria abraçar, acariciar, se aconchegar, levá-lo ao cinema...sabia que se demorasse muito a currá-la, ela podia mudar de ideia. A surpresa foi tanta que ele, que naturalmente gozaria em menos de cinco minutos comendo a bucetinha, durou um tempão no anal, o suficiente para o tesão dela passar e a raiva voltar. “Para, chega, não quero mais”, sem alternativa, ele deu um migué no banheiro batendo uma punhetinha enquanto ela praguejava olhando no relógio ao perceber que a chuva cessara, mas já era seis da manhã. “Filho da puta, comeu meu cú, o cú era do Lucas, maldito”...choro, raiva...”por que eu não fui?” Combinou consigo mesma: "amanhã dou pra ele no almoxarifado"

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

É só mais uma Maria

Manoel Felipe - Prostituição - 1944
O nome dela é Maria. De Maria o mundo tá cheio. Quarenta anos. Bem conservada, bonita, naturalmente gostosa com alguma saliência na barriga e algumas rugas, um charme.
Costureira. Trabalha no Bom Retiro, epicentro paulistano das confecções. Trenzão todo dia.
Casada, dois filhos. Católica, não praticante. Recatada. Insatisfeita com a vida, embora não seja de reclamar, mesmo porque conquistou tudo que almejara: casamento, carro popular, casa financiada e fins de semana na praia. Filhos que não se envolvem com droga, trabalhadores. O que dava muito orgulho.
Era sexta. Voltava pra casa, por sorte sentada (esperou vários trens partirem antes de tomar aquele na estação da Luz). Trem lotado no Brás, em Tatuapé abarrotado. Ofereceu-se para segurar a bolsa de uma moça que estava sendo esmagada (coisa mais do que banal). Numa confusão de trem lotado a moça sumiu. A bolsa ficou. "Meu deus, coitada. Preciso devolver".
Durante uma semana procurou incessantemente: mesmo horário, mesmo vagão, mesma estação em que perdera a moça de vista: Gianetti. Nada.
Relutou em fazer o óbvio, esperou uma semana pra isso: abriu a bolsa a fim de encontrar um número de telefone e ligar. Número de telefone, vários. Uma algema, um tubo de lubrificante, uma cartelinha de preservativos e um pinto de borracha. Que susto! Ao ver tudo aquilo, fechou a bolsa rapidinho.
Perturbação. Não contou a ninguém. Guardou a bolsa a sete chaves. Mais uma semana inquieta. Quis ligar, não conseguiu. Tomou coragem. Ligou, não conseguiu  falar. Só pensava no pinto de borracha."Que nojo", resmungava.
Sem saber, portava um objeto que mudaria a sua vida. Que poria em xeque todas as suas certezas e quebraria sua rotina. Aquele pinto de borracha se transformaria em um ingresso para um espetáculo que ela jamais quisera ir. De repente Maria se via atordoada com aquele troço intruso, imigrante. Não parava de pensar nele, queria se desfazer. "Credo, em quantas bocetas e cus esse negócio já não entrou? Deve estar cheio de doença".
Fuçou na bolsa. Os números de telefone estavam numa cartelinha de adesivos, aqueles que têm nos orelhões : "Paula insaciável. Seios volumosos. Bumbum durinho. Escândalo de mulher. 2X tudo - Liberdade 31016166".
Depois de muita inquietação, Maria fez o inevitável: pegou a bolsa do esconderijo, tirou o pinto de borracha, segurou firme, deu uma encarada e disse: "filho da puta". Recolheu, devolveu à bolsa, colocou-a em um saco de lixo preto e jogou no lixo. Deitou-se. O marido já dormia há muito, nem sabia o que acontecia com a mulher que na madrugada, bem ao seu lado confabulava uma série de coisas com seu futuro "amante". Virou-se de um lado para o outro tentando dormir. Levantou, bebeu água, deitou de novo e o pinto de borracha não saia de seus pensamentos. Que angústia.
Ao longe ouviu o barulho de caminhão. "é o caminhão do lixo". Levantou peremptoriamente, correu e salvou o seu amigo.
Levou o saco preto no banheiro. Estava tudo intacto. Num acesso de raiva e paixão incontida, rasgou o saco, pegou o pinto e deu um beijinho. Conferiu a validade da ola, do Ky e...
 Remorso, culpa, medo, nojo... sentimentos assim povoavam sua mente confusa, mas ela ignorou e teve o merecido prazer. Um prazer estranho. Autônomo, clandestino. Repetiu a dose até esmorecer.
Dia seguinte. A culpa diminuiu, veio a leveza. Maria passou a se cuidar mais. Constatou o quanto estava "relaxada" com a aparência, sem vaidade. Os pelos da boceta não estavam grandes, mas grossos, venciam a calcinha saindo pelos furos do tecido. Por mais que não precisasse, pois era muito bonita ao natural e linda em sua simplicidade, marcou depilação, cabeleireiro, manicure, fez um "banho de loja". Passou a notar o que sempre ignorara: assédios.
Trabalhava com leveza, não se importava mais com a lotação do trem. Queria chegar logo em casa e abraçar seu amigo pinto de borracha. Os dias foram assim. Maria e o pinto de borracha numa linda paixão. Gostaria de fazer como as crianças quando ganham brinquedo: dormir com ele, mas temia a reação do marido. Ele nunca respeitava suas vontades. Fazia dela um receptáculo de despejar esperma. Capaz de querer bater nela caso visse o pinto de borracha.
Como na vida tudo enjoa, ainda mais no caso dela que reconheceu de uma vez por toda a beleza de que dispunha e o potencial que tinha, Maria rapidamente largou o pinto de borracha.
 Não demorou nada entre notar os assédios e aceitá-los. Com um menino de vinte anos da firma ela viveu verdadeiros dias de aventura. No estoque, em meio aos tecidos, no banheiro... ao ponto de ser pega, virou inconsequente no ritmo do garoto: se roçavam disfarçadamente na frente dos outros, mão boba aqui, mão boba lá.
Passou também a retribuir os olhares. Rapidamente estava envolvida com seis homens diferentes. Chegava em casa puída, desgastada e dava ao marido o que ele queria: um buraco de satisfazer necessidades masculino-caninas. Dormia. No dia seguinte, a mesma coisa.
Já não reclamava do marido com as colegas de trampo. O casamento logo logo ia para o ralo, tão logo fosse descoberta. Na empolgação fazia cada vez menos esforço para esconder suas aventuras. Tinha muito apreço por uma amiga que sofria no casamento. Maria pensou em fazer um "kit" pra ela também, mas não teve coragem.
Num devaneio, Maria se pegou pensando nos telefones da cartelinha de adesivos. Pensou em fazer uma cartela também, imaginou as maiores habilidades que tinha. Pensou nas frases. Teria de mudar o celular, mudar o nome. Gostava muito do nome Yasmin.

Manoel Felipe - Prostituição - 1944

Oídios

Na beira do rio havia uma rosa
Uma rosa bonita, que já não "fulorava"
A água do rio bem que tentava
Mas a rosa só se abria pra's gotas de chuva