![]() |
| Manoel Felipe - Prostituição - 1944 |
Costureira. Trabalha no Bom Retiro, epicentro paulistano das confecções. Trenzão todo dia.
Casada, dois filhos. Católica, não praticante. Recatada. Insatisfeita com a vida, embora não seja de reclamar, mesmo porque conquistou tudo que almejara: casamento, carro popular, casa financiada e fins de semana na praia. Filhos que não se envolvem com droga, trabalhadores. O que dava muito orgulho.
Era sexta. Voltava pra casa, por sorte sentada (esperou vários trens partirem antes de tomar aquele na estação da Luz). Trem lotado no Brás, em Tatuapé abarrotado. Ofereceu-se para segurar a bolsa de uma moça que estava sendo esmagada (coisa mais do que banal). Numa confusão de trem lotado a moça sumiu. A bolsa ficou. "Meu deus, coitada. Preciso devolver".
Durante uma semana procurou incessantemente: mesmo horário, mesmo vagão, mesma estação em que perdera a moça de vista: Gianetti. Nada.
Relutou em fazer o óbvio, esperou uma semana pra isso: abriu a bolsa a fim de encontrar um número de telefone e ligar. Número de telefone, vários. Uma algema, um tubo de lubrificante, uma cartelinha de preservativos e um pinto de borracha. Que susto! Ao ver tudo aquilo, fechou a bolsa rapidinho.
Perturbação. Não contou a ninguém. Guardou a bolsa a sete chaves. Mais uma semana inquieta. Quis ligar, não conseguiu. Tomou coragem. Ligou, não conseguiu falar. Só pensava no pinto de borracha."Que nojo", resmungava.
Sem saber, portava um objeto que mudaria a sua vida. Que poria em xeque todas as suas certezas e quebraria sua rotina. Aquele pinto de borracha se transformaria em um ingresso para um espetáculo que ela jamais quisera ir. De repente Maria se via atordoada com aquele troço intruso, imigrante. Não parava de pensar nele, queria se desfazer. "Credo, em quantas bocetas e cus esse negócio já não entrou? Deve estar cheio de doença".
Fuçou na bolsa. Os números de telefone estavam numa cartelinha de adesivos, aqueles que têm nos orelhões : "Paula insaciável. Seios volumosos. Bumbum durinho. Escândalo de mulher. 2X tudo - Liberdade 31016166".
Depois de muita inquietação, Maria fez o inevitável: pegou a bolsa do esconderijo, tirou o pinto de borracha, segurou firme, deu uma encarada e disse: "filho da puta". Recolheu, devolveu à bolsa, colocou-a em um saco de lixo preto e jogou no lixo. Deitou-se. O marido já dormia há muito, nem sabia o que acontecia com a mulher que na madrugada, bem ao seu lado confabulava uma série de coisas com seu futuro "amante". Virou-se de um lado para o outro tentando dormir. Levantou, bebeu água, deitou de novo e o pinto de borracha não saia de seus pensamentos. Que angústia.
Ao longe ouviu o barulho de caminhão. "é o caminhão do lixo". Levantou peremptoriamente, correu e salvou o seu amigo.
Levou o saco preto no banheiro. Estava tudo intacto. Num acesso de raiva e paixão incontida, rasgou o saco, pegou o pinto e deu um beijinho. Conferiu a validade da ola, do Ky e...
Remorso, culpa, medo, nojo... sentimentos assim povoavam sua mente confusa, mas ela ignorou e teve o merecido prazer. Um prazer estranho. Autônomo, clandestino. Repetiu a dose até esmorecer.
Dia seguinte. A culpa diminuiu, veio a leveza. Maria passou a se cuidar mais. Constatou o quanto estava "relaxada" com a aparência, sem vaidade. Os pelos da boceta não estavam grandes, mas grossos, venciam a calcinha saindo pelos furos do tecido. Por mais que não precisasse, pois era muito bonita ao natural e linda em sua simplicidade, marcou depilação, cabeleireiro, manicure, fez um "banho de loja". Passou a notar o que sempre ignorara: assédios.
Trabalhava com leveza, não se importava mais com a lotação do trem. Queria chegar logo em casa e abraçar seu amigo pinto de borracha. Os dias foram assim. Maria e o pinto de borracha numa linda paixão. Gostaria de fazer como as crianças quando ganham brinquedo: dormir com ele, mas temia a reação do marido. Ele nunca respeitava suas vontades. Fazia dela um receptáculo de despejar esperma. Capaz de querer bater nela caso visse o pinto de borracha.
Como na vida tudo enjoa, ainda mais no caso dela que reconheceu de uma vez por toda a beleza de que dispunha e o potencial que tinha, Maria rapidamente largou o pinto de borracha.
Não demorou nada entre notar os assédios e aceitá-los. Com um menino de vinte anos da firma ela viveu verdadeiros dias de aventura. No estoque, em meio aos tecidos, no banheiro... ao ponto de ser pega, virou inconsequente no ritmo do garoto: se roçavam disfarçadamente na frente dos outros, mão boba aqui, mão boba lá.
Passou também a retribuir os olhares. Rapidamente estava envolvida com seis homens diferentes. Chegava em casa puída, desgastada e dava ao marido o que ele queria: um buraco de satisfazer necessidades masculino-caninas. Dormia. No dia seguinte, a mesma coisa.
Já não reclamava do marido com as colegas de trampo. O casamento logo logo ia para o ralo, tão logo fosse descoberta. Na empolgação fazia cada vez menos esforço para esconder suas aventuras. Tinha muito apreço por uma amiga que sofria no casamento. Maria pensou em fazer um "kit" pra ela também, mas não teve coragem.
Num devaneio, Maria se pegou pensando nos telefones da cartelinha de adesivos. Pensou em fazer uma cartela também, imaginou as maiores habilidades que tinha. Pensou nas frases. Teria de mudar o celular, mudar o nome. Gostava muito do nome Yasmin.
![]() |
| Manoel Felipe - Prostituição - 1944 |


